Com um pouquinho de atraso mas com mais tempo para reflexão, pude observar o cenário carioca, não com tanta presença física quanto anteriormente mas, espiritualmente tanto quanto. Eu estou aí, eu observo. Quisera eu ser dono da verdade, mas o fato é que a verdade existe e ela deve ser revelada, os fatos falam por si e eu tenho que me ater a eles. Não quero dizer, porém, que o meu ponto de vista é único e imutável, pois outros poderão não ter visto o que vi, muito menos ponderado como ponderei. Vamos falar de verdades relativas, então? Depois de tantos vai e vens filosóficos, vamos nos ater ao que aconteceu de melhor - e pior - no cenário, em um bom resumo.
Eu estive analisando como base, principalmente, os fóruns como orkut, myspace que - atualmente - são o reduto das tribos. É como se fosse um bar, todos jogam conversa fora, todos jogam palavras ao vento, mas o fato é que você fica sabendo de tudo. Ou quase tudo. Mas a minha análise vai mais pelas entrelinhas. E é imparcial.
Eu estou aqui no Rio de Janeiro desde 94, sempre acompanhando a cena underground, principalmente a cena METAL, com entusiasmo, tanto como músico quanto colaborador. Vi muita banda começar e acabar assim como vi bandas não tão boas fazerem sucesso. Mas o fato é que a cena foi se transformando ao longo desses anos. Se na metade da década de 90 até 2000 o metal se misturava - talvez por pura falta de oportunidade - com outros estilos (o Dust From Misery, minha banda na época, estava sempre tocando em festivais junto com bandas como Zumbi do Mato, Funk Fuckers, Wonderland, Piu piu e sua banda, etc...) e quando não estávamos tocando, convivíamos com essas pessoas (quem lembra aqui do festival SUPERDEMO, de Elza Cohen? Quem se lembra aqui do programa EP VANGUARDA, de Andréia e Adriana Kassas?). Praticamente ninguém. A galera atual é péssima em história da cultura local mas vangloria os anos 80 como se fosse a única época mágica. Não foi, o movimento começou em 80 mas em termos culturais seguiu evoluindo, mudando, seguindo tendências, criando outras - mas seguiu fazendo CULTURA. CRIANDO.
Hoje em dia eu vejo o espaço para a CRIAÇÃO, para a CULTURA definhando. Ah, mas existem espaços, mas existem eventos. Eu concordo. Nunca tivemos TANTOS EVENTOS, mas como diziam os antigos, QUANTIDADE não é QUALIDADE. É justamente a qualidade que eu estou discutindo aqui. Não adianta fazer mais do mesmo, não adianta fazer cover, porque isso vai estagnar a cultura. Onde está a identidade? Onde está o movimento? Qual a causa disso? Por que ser rebelde? Não somos ENTRETENIMENTO, SOMOS CULTURA, SOMOS ARTE!
Não pensem que estou aqui dizendo isso porque a minha banda ficou - E ESTÁ - 03 anos afastada dos palcos cariocas - e um pouco mais que isso, afastados dos palcos PAULISTAS. Mas EU VI com esses olhos, o movimento cair. Os covers crescerem, as bandas se renderem, músicos abrirem as pernas, o apogeu de DJ'S e as festas cada vez mais bombantes. Eu até concordo com a galera que gosta e quer sair pra se divertir e ser mais seletiva, claro - indo para as baladas você não tem responsabilidade de ficar em frente ao palco para ouvir uma banda que você não conhece, muito menos tem interesse em conhecer. Você vai ouvir os velhos sucessos internacionais e as músicas novas - internacionais - underground ou não, isso não importa. Ah, é claro, vamos tocar algo nacional para não pegar tão mal, né? Aí rola uma ou outra música. Mas, obviamente, vamos tocar o que o povo quer ouvir.
Será que as bandas aqui são tão ruins? Há vazão para grandes nomes por aqui? Há condições de surgir algo grande por aqui? Vamos fazer uma retrospectiva:
Anos 90:
WONDERLAND, DUST FROM MISERY, IMAGO MORTIS, SCARS SOULS, ENDLESS, ALLEGRO, SIGMA 5, ANSCHLUSS, HICSOS, GANGRENA GASOSA, UZOMI, etc...
Década 00 pra cá:
AVEC TRISTESSE, VENIN NOIR, TRINNITY, HEAVENFALLS, LOST FOREVER, CONFRONTO, UNEARTHLY, MYSTERIIS, NORDHEIM, TRIBUZY, APOKALYPTIC RAIDS, FARSCAPE, ATLANTIDA, etc....
Estou citando principalmente as que lançaram algum trabalho mais ou menos relevante e fizeram shows importantes dentro da cena, claro que esqueci alguns nomes, esses foram os que eu lembrei de primeira, querendo apenas exemplificar que não estamos mais criando cultura nos tempos de hoje, mas poderemos nos espelhar em bandas que tiveram histórias com tanto significado e honraram o cenário carioca - tanto aqui - quanto fora, inclusive em outros países. Ok, amigos, eu sei que existem bandas aqui de alto nível, bandas novas, da mais recente geração pós Ballroom/Rio Metal Fest. São elas a SCATHA (ao meu ver, a mais talentosa surgida nesses 04 últimos anos), os niteroienses do AGE ONE, os Xiitas do EMPÜRIUS (até que enfim, alguém fazendo um som diferenciado), o PROPHECY (são caras maduros, esses sabem o que fazem), entre outras veteranos que continuam na batalha (o guerreiro FLAVEUS NEUTRALIS, por exemplo), o POSSESSONICA (de BEBETO DAROZ - esse já considerado um Senhor Jedi), entre outras. Mas cadê o espaço a essas bandas? Sim, essas bandas tocam, algumas não tocam quase sempre mas normalmente, renegadas ao segundo plano. O ENTRETENIMENTO está em primeiro, isso sim! Vamos falar de profissionalismo? Produtores? Os eventos que mais atraem público possuem bandas cariocas, sim. Possuem músicos, sim. Mas são covers. Metal Jam, o próprio RIO METAL FEST (que foi idealizado para ser uma brincadeira, nada mais do que isso) não são ruins pois une muita gente e - apesar de covers, são mais como uma forma de tributo, de reunião, de celebração. Poderiam fazer cultura também? É claro...
Profissionalismo: sim, eu vejo profissionalismo dentro disso tudo e algumas pessoas mais espertas vão conseguir se enquadrar nas fileiras da MÚSICA-ENTRETENIMENTO, como algumas bandas - não vou citar nomes - estão moldando seus trabalhos para atrair público ao invés de apenas criar - e instigar. Não sou contra esse pensamento, sou apenas PRÓ CULTURA e o meu compromisso é com a VERDADE. MÚSICOS, SUAS ARMAS SÃO SEUS INSTRUMENTOS E SUAS MÚSICAS, SUA ALMA E SUA VOZ. Somos muitos e poderemos, juntos, podemos construir algo mais interessante do que só bla bla bla, entrelinhas e musiquinhas fáceis de repetir. Ou seja, poderemos fazer nossas vozes ecoarem e, velhas estruturas e padrões (excludentes), desabarem. Mas 2009 vem aí, Viva La Revolución!