Hard Blast
   
  Logo Hard Blast
 
   
 
 

Guns N´Roses: Uma questão de conceito & os novos Gunners

 
Por: Sanni Marit
 

É domingo de manhã aqui na Finlândia, o rádio está ligado como durante minha infância – um Schaub-Lorenz vermelho de couro que ia conosco para todos os lugares - eu adorava a mágica que emanava disso. Aquelas vozes eram como um mundo paralelo e a forma como as palavras trabalham, como vozes e sons podem nos afetar, isso ainda me fascina.

Meu pai costumava contar histórias de H.C.Andersen, o mesmo conto de fadas por várias vezes. A comunicação auditiva, as palavras, os livros, a música e o rádio davam mais espaço a imaginação do que a TV e os filmes. Nós não escutávamos música erudita mas eu adorava sintonizar num canal de sinfonias porque eu queria  conduzir uma orquestra. Pegava a agulha de tricô de minha mãe e amava os poderosos momentos, quando a música crescia ou quando se tornava tão vulnerável quanto uma borboleta.

 
 

Para confirmar meu amor verdadeiro pelo rádio, tenho uma cicatriz na perna que consegui durante uma briga com meus irmãos por causa de uma antena quebrada. Mais tarde ela se tornou um ótimo brinquedo e valeu a briga, pois o tamanho era ajustável e, por isso, podíamos usá-la de várias formas em várias brincadeiras diferentes.

É bom ser solteira em momentos como este. Enquanto escutava rádio esta manhã, mais uma vez senti e pensei em várias coisas; divaguei, sorri, chorei e ninguém se sentiu negligenciado quando resolvi me sentar ao computador com meu headset e meus dedos no teclado, e nem quando apenas fechei os olhos e deixei a música me fazer dançar. Meus gatos pareciam estar de saco cheio, Olivia apenas abriu os olhos e fechou-os de novo, bem lentamente, provavelmente pensando: ”Ah! Ela não tem o menor estilo, a menor elegância.”
Discussões recentes a respeito do que é ”boa música” me levaram a este tópico.

Em que nos baseamos para escutar, gostar ou desgostar do que ouvimos? Os mesmos fatos podem ser vistos como pontos fortes ou pontos fracos, dependendo do humor e da atitude do ouvinte. Por exemplo; uma banda nova lançando seu primeiro álbum e uma banda antiga com músicos profissionais e diversos álbuns no mercado. Sempre haverá críticos que acharão mais pontos negativos do que positivos em ambos: pode-se dizer que as bandas novas precisam de mais experiência e público, que não têm como chegar as rádios, que não vale a pena escrever uma resenha sobre elas, que sempre se parecem com alguma outra banda, e ninguém lhes dá sequer uma chance para que sejam escutadas pelo que são individualmente. Das bandas antigas e experientes esta pessoa - que nunca para e se pergunta se é realmente capaz de escutar algo - deve dizer que são incapazes de trazer algo novo, que são velhas, que os músicos não tocam mais com o coração. Mas esquecem de se perguntar qual o coração que realmente se perdeu neste processo interativo que é o tocar e o escutar.

A respeito dos trabalhadores, li um artigo muito bom que falava sobre ”um bom empregado” ao invés de ”um bom chefe”. Então, que tal definir ”um bom ouvinte” ao invés de falarmos sobre música boa ou música ruim? É necessário lutar para conseguir manter a cabeça aberta, livre de preconceitos e ceticismo. Em muitos casos o problema está bem mais no ouvinte do que na música e mesmo alguns jornalistas profissionais negam isso, projetando a si próprios em seus escritos, sua falta de profundidade, suas frustrações, inveja, entorpecimento, muitas vezes esquecendo-se de que deveria ser da música o papel principal e não de quem está tocando e demais créditos. Felizmente há os que escrevem em revistas e apresentam seus programas de rádio por décadas tendo conseguido se manter abertos a todos os tipos de música, longe deste ceticismo assassino. E quando têm limitações, sabem admitir isso!
O efeito vai-e-vem da mídia comercial não pode ser negado e é claro que há  uma espécie ainda não extinta de jornalistas bons e verdadeiros, além de uma ninhada  de palhaços sexy sem nenhuma substância.

Quanto mais tenho possibilidade de ouvir músicas novas em fase de mixagem e masterização, mas eu curto e ao mesmo tempo me chateio com ambas as partes: meu conhecimento e a falta de.
Escutar cada detalhe do som é muito cansativo aos ouvidos, a música é uma fonte infinita de emoções e histórias, além de  um grande canal para mostrar isso também.  Não pretendo me focar num único som ou numa única técnica se isso tiver que reduzir minha capacidade de escutar a música por completo, por suas várias dimensões, níveis e caminhos, do físico ao emocional, do superficial ao espiritual, do consciente ao inconsciente. A música toca o corpo e a mente por inteiro e nós somos como copos. É fácil entender que despejar muita música em um copo não seja possível. Sem o silêncio, não aprendemos a realmente escutar. Quanto melhor é a música, mais forte é o toque e  quanto mais houver  fome e sede em outras áreas, melhor ela ficará. É apenas uma questão de atingir os lugares certos, preferencialmente, o coração.
Eu sei como compor e escrever letras pode ser uma luta árdua. Qualquer um pode cozinhar de acordo com as instruções escritas nas receitas, mas a comida se torna especial apenas quando preparada com um toque de loucura, com a adição de ingredientes corajosos, um pouco disso ou daquilo e a certeza de que as vezes acidentes acontecem. Oops, tempero demais, pimenta demais! Isso é mais importante para quem está comendo ou para quem fez a comida? A mesma sopa pode causar diferentes reações nas pessoas; ”Muito bom”, ”diferente”, ”horrível”, ”quente demais para mim”. Todas as opiniões são legítimas. Da mesma forma, os ouvintes deveriam sentir o prazer da honra de escutar ou ter responsabilidade por suas próprias decepções. Saber o que é uma reação pessoal, baseada numa opinião pessoal e que muito disso está pautado em como se reage ao inesperado, como no caso da sopa, estando preparado para literalmente comprar a receita, como se estivessem lidando com algo familiar, em território conhecido.

Espero que o ”mainstream” se torne tão aberto e colorido quanto o globo terrestre. Desejo que, ao mesmo tempo em que aceitamos a responsabilidade individual pela paz e pelo meio-ambiente, possamos também adquirir mais auto-confiança em toda a nossa forma de consumir, inclusive música. Espero que as décadas, as idades e os gêneros percam suas limitações. Os ouvintes são a linha do tempo para cada ”player” , para cada envolvido em negócios relacionados a música.

Vida longa a todos os estilos musicais, canais de rádio, jornalistas e, sobre tudo, ouvintes livres e independentes! Nós somos os mais sortudos e os melhores ”players”!

Vou dar uma volta pela floresta em silêncio por umas horas...Cuidem de seus ouvidos!

  Untitled Document
Hard Blast 2010