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Banda Cover x Trabalho Autoral
Por: Allan Christian

Olá, pessoal!

É um grande prazer estar aqui novamente com vocês... Caso alguém queira sugerir um tema para essa coluna, também poderá enviar sua sugestão, assim como comentários, críticas e depoimentos, para allan@hardblast.com

Quem nunca reclamou (e não sem nenhuma razão) de que as bandas brasileiras não têm chance de ascender profissionalmente? Que somente Angra e Sepultura têm chances de levar a música além dos pubs e bares da noite das grandes cidades?

Bom, isso é uma questão enfrentada pela imensa maioria das pessoas que um dia tiveram ou têm uma banda.
Executar um trabalho autoral e ser apenas “mais uma banda” na estrada em busca de um lugar ao sol, ou se render às facilidades de ter um trabalho cover? Eis a questão...

 
Ao tocar um cover sem prévia autorização do detentor dos direitos autorais e propriedade intelectual (geralmente o compositor da música ou o selo de lançamento), muitos nem sequer sabem que estão cometendo uma infração prevista por lei. E os direitos autorais perduram até 70 anos após a morte do detentor, somente então caindo em domínio público.

No caso das bandas Bootleg, são sempre autorizadas e apoiadas pelas bandas detentoras do nome e das canções, sendo parte da renda do Bootleg, revertido para a banda oficial. O que poderia (e deveria) ser feito, é facilitar o acesso das bandas à liberação dos direitos de execução, diminuindo o custo e aumentando a rotatividade, além de fiscalizar essa prática. Mas na terra da burocracia e do tapinha nas costas, isso se torna uma piada de mau gosto.

Se a banda quer tocar só cover, não ter uma proposta artística própria, é um direito dela, desde que dois pontos sejam observados: a parte jurídica, relativa aos direitos dos detentores das canções, e a parte artística, relativa à consciência de que não estão fazendo arte, e sim reproduzindo, de forma que essas bandas assumem uma grande importância como veículos de divulgação (além de ser infinitamente mais prazeroso ouvir uma banda ao vivo do que música em um auto-falante), porém pouca importância quanto à contribuição com o desenvolvimento artístico da linguagem musical em questão.

Mas o problema começa muito antes disso. Na verdade, é uma cadeia de fatos que culminam nesse problema. Ao montar uma banda, as pessoas podem ter diversos objetivos: lazer, diversão, relacionamento social, re-habilitação psíquica ou motora, ascendência social, expressão artística, dentre diversos outros motivos.

Mas se for para ser músico por profissão, será necessário muita disciplina, sinceridade, responsabilidade artística e perseverança. Música nunca fez nem fará mal a ninguém, ao contrário, traz incontáveis benefícios (quem sabe o tema de um artigo para esta coluna: os benefícios físicos, psíquicos e sociais que a música traz) e sou um grande incentivador da prática musical, aonde quer que ela aconteça, desde que seja com responsabilidade artística e sinceridade. Esse entretenimento sonoro massificado veiculado pela mídia pode ser chamado de tudo, menos de Música. Talvez “ruído” seja um nome mais apropriado...

Quem nunca sonhou em ser um rock-star, em fazer tournée pela Europa e Ásia, em um avião próprio, ficando em hotéis luxuosos rodeado de groupies, levando a platéia ao delírio? Bom, esse é o sonho pelo menos da imensa maioria dos que um dia pegaram um instrumento musical na mão aqui no Brasil. Infelizmente...

Mas ao sonhar alto, almejar os palcos europeus, muitos se esquecem de coisas básicas para que esse objetivo seja alcançado: realmente ter uma proposta musical inteligente e artística, ter domínio de seu instrumento e de sua linguagem musical escolhida, ter um bom domínio da língua inglesa e, se possível, de mais um idioma estrangeiro (imagine fazer uma reunião de negócios com o executivo de uma grande gravadora ou produtora estrangeira, falando o famoso “embromish”, ou ter de ler um longo contrato de trabalho em inglês sem ter total certeza do que está fazendo, simplesmente não dá.

Falar a língua do país aonde você vai tocar, abre inúmeras portas, derruba barreiras e causa um impacto imensamente positivo), além de milhaaaaares de outros pré-requisitos como domínio das técnicas de grafia da ABNT e dos órgãos internacionais de referência, registro de músicas, registro do nome de banda ( seria muito chato descobrir que um cara em algum lugar do mundo, roubou o nome da sua banda e está te processando pelo fato de que ele registrou antes de você o nome de banda que era seu, ou mesmo uma canção sua... Acreditem: existem pessoas que vivem dessa prática), abertura de firma, conta bancária internacional, ficha criminal limpa e o cumprimento de diversos outros procedimentos para embarque internacional. Ou seja, não é brincadeira. Mas as bandas pensam nisso ao sonhar alto? É como sonhar em voar sem ter asas, vai lhe render um grande tombo e algumas lesões, além de uma imeeeeensa decepção...

Em uma recente viagem à Escandinávia, passei alguns meses na Finlândia, e me deparei com um fato que muito me animou: o incontável número de bandas de pequeno ou médio porte com trabalhos autorais, tocando nos pubs das cidades por onde passei. E o mais incrível de tudo: Casa lotada! Sempre! É incrível ver como o povo finlandês (ao contrário de nós) sai de casa para ver e apreciar as bandas com trabalhos autorais, sejam elas de pequeno, médio ou grande porte, enquanto por aqui, pagamos uma fortuna pra ver o Rush ou o Queen (e com razão, são grandes bandas), ou até mesmo aquelas bandas covers (tributos, bootlegs, covers, warming ups e derivados), mas torcemos o nariz ao pagar R$5,00 para ver nossos próprios amigos tocando seus trabalhos autorais.

Nós brasileiros, damos sempre preferência àquelas bandas que tocam covers das bandas que gostamos, simplesmente desprezando o potencial de grandes bandas que estão por ai, anônimas e trabalhando duro para sobreviverem, concorrendo com bandas covers que nem sequer possuem uma proposta artística, sem nenhuma responsabilidade artística ou musical.

Mas por que isso acontece? Preço. Simples assim. Toquei e toco em banda há anos, convivo diariamente com músicos de diversas bandas, desde bandas de grande porte e super famosas a bandas de garagem, e asseguramos-lhes: custa uma fortuuuuuuuuna manter uma banda profissional! Equipamento, transporte, gravações, ensaios, material promocional, além da imeeeensa lista previamente citada... Isso sem contar o investimento pessoal de cada músico: instrumentos musicais, figurino, cursos de línguas, de música, de artes, etc, etc, etc, etc, etc, etc... E tudo isso para receber um cachê insignificante quando a banda toca ao vivo, concorrendo com aquelas bandas covers e sem proposta artística, que os integrantes nem sequer são músicos, e nem sequer vivem da música. E o mais triste de tudo: O nosso país precisa de bandas boas. E muitas dessas bandas boas, com músicos muito bons, com propostas artísticas muito boas, quando se encontram sem opção, aderem a pratica do cover, deixando de contribuir com o cenário musical de sua cidade, e dando aos donos de pubs, a certeza de que as bandas covers lhe darão um resultado financeiro muito mais favorável. Ai fechou-se o ciclo...

Bom, nem precisa de muita reflexão para entender o porquê desse BOOM de bandas oriundas da Finlândia e Suécia.

Parem e pensem bem antes de reclamar da música veiculada pela mídia... Todos nós temos uma parcela de culpa nisso... Ainda mais nessas épocas de “hortifrutti” na tv brasileira (Garota Beterraba, Garota Berinjela, Garota Isso, Garota Aquilo... E o pior de tudo: elas estão se metendo a cantar, e devido ao grande investimento feito sobre a marca delas, elas concorrem com grandes artistas de renome).

Recomendo:
Clube da Esquina - Tavinho Moura, Wagner Tiso, Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Flávio Venturini, Toninho Horta, Márcio Borges, Fernando Brant e companhia (um dos grandes berços do rock progressivo mundial)

 
Allan Christian
allan@hardblast.com
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