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Nota do Editor:
Olá Rocker!
Eu e toda a equipe do Hard Blast pedimos desculpas pela demora nas atualizações, tenho estado muito ocupada cobrindo os festivais de verão, mas em breve tudo estará de volta ao ritmo normal. Prometemos a vocês fotos exclusivas, entrevistas, resenhas e tudo de mais interessante no estilo do Hard Blast. Também estamos trabalhando com novos parceiros para que o site fique ainda melhor e mais moderno. Em pouco tempo estaremos de volta. Além do Tuska Open Air e do Hellfest, estivemos no Ruisrock, Sonisphere e Ankkarock, então prepare-se! O verão infelizmente está no fim aqui na Europa, mas nosso trabalho com o Hard Blast só está crescendo. Um beijo e stay rock!
Maila
 
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Mamãe Música Erudita...

Por: Allan Christian
 

Olá, pessoal!

É um grande prazer estar novamente aqui com mais um artigo. O tema da coluna desse mês está diretamente ligado à instrumentação musical e à distribuição e função dos instrumentos em uma banda, orquestra ou qualquer tipo de conjunto musical.

Quando assistimos a um concerto de orquestra, temos a nítida impressão de uma simultaneidade, ouvimos diversos sons diferentes, em diferentes registros, intensidades, durações e timbres, além da noção de espacialidade, ou seja, sentimos os efeitos do posicionamento dos instrumentos em relação ao palco e ao público. A percepção e observação desses fenômenos, é de extrema importância na audição de um concerto, show, assim como em qualquer apresentação musical.

Estive por uma semana em Saquarema-RJ, durante as apresentações dos blocos locais de carnaval, e fui convidado a participar do desfile do “Bloco da Rama” de Jaconé, bloco esse que tem como um dos diretores um primo meu. Durante todo o desfile, me concentrei em observar o comportamento da “Bateria” (não uma bateria como aquelas presentes nas bandas de palco, e sim uma orquestra percussiva, popularmente assim chamada), e deparei com um grande grau de organização dentro desse organismo do bloco. A bateria é dividida em diversos grupos, separados por registro (instrumentos graves, médios, agudos), e dentro dessa divisão primária, há uma divisão secundária, ou seja, o instrumento em si, o que nos traz essa sensação sonora de espacialidade, sensação essa que tende a desaparecer quando nos distanciamos. Para comandar essa complexa formação, é necessário um regente (sim, como um “maestro”, que marca o ritmo em gestos e marca a entrada e parada dos instrumentos).

Em um show de rock, por exemplo, perdemos essa característica do som, devido a utilização de um mixer, que “funde” todos os sons para que sejam emitidos simultaneamente por um auto-falante, o que não impede que outras propriedades do som sejam exploradas e que a audição do show de rock se torne uma grande experiência.

A formação tradicional de uma banda de rock traz bateria, contra-baixo elétrico, guitarras elétricas, teclados e voz. Isso, sem contar a infinidade de gravações de bandas de rock acompanhadas por orquestras sinfônicas e orquestras de câmara, dando uma roupagem bem diferente à sonoridade original da banda, além de conferir à banda, uma sonoridade mais rica e complexa do que a sonoridade do famoso Power Trio (Guitarras, Contra-Baixo e Bateria).

Façam essa experiência em casa: tentem ouvir isoladamente cada instrumento da banda. Faça uma audição somente para a bateria, identifique e memorize seus principais elementos, e caso necessite, repita o procedimento diversas vezes até que a linha de bateria se torne familiar. Após isso, repita o mesmo procedimento com o contra-baixo, as guitarras (caso haja mais de uma, uma de cada vez), teclados, e finalmente a voz. Quando todas as linhas lhe soarem bem familiar, tente ouvir a canção e identificar a ocorrência simultânea das linhas e seus principais elementos. Essa experiência lhe dará a noção de simultaneidade, o elemento primário para se criar consciência da espacialidade e da percepção temporal (observação de diversos fenômenos simultâneos dentro de um ambiente determinado). Com o tempo, aplique esse mesmo exercício a formações instrumentais maiores, até que se sintam confortáveis ao aplicar esse exercício à audição de uma peça sinfônica. Separe a orquestra sinfônica em suas 6 famílias: Cordas, Madeiras, Metais, Percussão, Coro e Outros (instrumentos não tradicionais), e tente ouvir isoladamente o que acontece dentro de cada uma dessas famílias. Será uma experiência muito enriquecedora para os ouvintes de qualquer tipo de música.

A audição desses conjuntos musicais feita por via digital, apenas tenta aproximar-se do que seria a escuta natural. O fato de ouvirmos orquestras em rádios e gravadores, por mais modernos que sejam esses aparelhos, nos tira a verdadeira sensação do que é ouvir uma orquestra ao vivo, temos uma sensação de compressão sonora, tirando toda e qualquer percepção desse fenômeno que é a ação conjunta de simultaneidade e espacialidade.

Mas, com o desenvolvimento da linguagem musical, a música eletro-acústica (gerada por computadores) tem como paradigmas composicionais  para a nossa época exatamente esses dois itens: a espacialidade e a exploração espectral do som, sendo que, desde os primeiros experimentos eletro-acústicos ainda na primeira metade do século passado, os equipamentos eletrônicos vêm traçando um desenvolvimento de forma a suprir essa necessidade de uma simulação realista desses fenômenos. E hoje temos Studios 3D, com caixas de som posicionadas estrategicamente, de forma à nos dar essa sensação.
           
Mas o que tudo isso tem a ver com Heavy Metal? De todos os estilos de música, nenhum se aproxima tanto da música clássica quanto o Heavy Metal, o Choro e o Jazz. Ambos os estilos sofreram uma direta influência da música erudita. Os músicos do Heavy Metal, em sua grande maioria, tiveram formação clássica ou estudaram música clássica em algum momento de suas vidas, o que fica explícito na audição de suas composições. Mas por que pegar elementos da música erudita de quatro séculos atrás? Somente dos períodos barroco e clássico? Por que não mergulhar na música erudita moderna e em suas infinitas possibilidades, em sua imensa liberdade composicional, trazendo para o universo rock os elementos mais modernos e atuais da música erudita?

Apenas algumas poucas bandas criaram essa consciência. Um projeto musical que desenvolvo chamado “Cradle of Tales”, traz essa direta influência da música moderna, somada à elementos étnicos e da música brasileira. Outra banda que investiu alguns segundos de seu álbum à música moderna foi a banda sueca “Pain of Salvation” (cito essa banda no meu primeiro artigo, de janeiro de 2009), na minha opinião, está no Top 3 das melhores bandas da atualidade. As bandas de rock progressivo sempre tiveram uma direta relação com os compositores dessa música denominada “Música Nova” (vide artigo de janeiro de 2009), e por muitas vezes, freqüentando aulas ministradas por esses compositores da Avant Garde, levando um pouco dessas idéias inovadoras aos palcos de Rock. Cada vez mais, o Rock ganha espaço dentro do ambiente acadêmico, tendo várias dissertações de mestrado e teses de doutorado dedicadas a esse assunto, no mundo inteiro. Só é necessário tomar um certo cuidado ao tratar desse assunto, para que tudo seja tratado com a mesma seriedade e meticulosidade que é tratado no ambiente acadêmico, sempre sob a batuta de um orientador acadêmico, para que o trabalho se sustente e tenha valor científico e artístico, e não caia na subjetividade. E novamente, com a possibilidade de aplicação desses preceitos ditos da Avant Garde em palcos e salas de concerto, por que não fazer definitivamente do Rock o elo principal entre o pop e o erudito?

Um grande abraço, e até a próxima...

Recomendo:
Karl-Heinz Stockhausen
Flo Menezes
Henri Posseur

 
Henri Posseur  
Dedicado à memória de Henri Posseur 23/06/1929 – 06/03/2009  
 
Allan Christian
allan@hardblast.com
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Hard Blast 2010