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Música Clássica e Heavy Metal
Por: Allan Christian
 

Olá, Pessoal...

É com grande alegria e prazer que faço meu “debut” como colunista do Hardblast.com. Vejo neste site, uma grande oportunidade para bandas, músicos e profissionais ligados a música, abrindo espaço para músicos e amantes da música falarem de música, com responsabilidade, sinceridade e respeito, à música e aos leitores.

A música erudita é sem dúvida uma imensa fonte de referências para a música popular. Sendo assim, o Heavy Metal não escapou dessa influência, pelo contrário, mergulhou nela.

Mas qual a relação entre a música erudita (dita clássica) e o Heavy Metal? Existe uma direta influência da música erudita sobre o Heavy Metal? Existe, sem dúvida nenhuma. Seria uma lista infindável caso eu fosse citar os nomes de todas as bandas que sofrem essa influência.

Desde a “Ars Nova” de Philippe de Vitry e Guillaume de Machaut, até a “Música Nova” de Brian Ferneyhough e Flo Menezes, abrangendo um período de aproximadamente 700 anos da história da música, podemos encontrar direta influência sobre a música popular, dentro e fora do Rock ou Heavy Metal. Sendo assim, darei apenas um exemplo por período.

Se partirmos cronologicamente da música renascentista, já podemos encontrar a abertura (Crossing) do álbum Holy Land, da banda Angra, sendo essa, uma peça coral do compositor italiano Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525-1594), período de explendor do contraponto modal.

Influenciada pela música do período Barroco, podemos citar grande parte da obra do guitarrista sueco Yngwie Malmsteen, ou mais especificamente a canção Black Diamond, da banda finlandesa Stratovarius, que tem em sua introdução um “Pedal Point”, além da presença do Cravo, um instrumento tipicamente barroco. É realmente inegável a presença da sonoridade barroca de Händel, Bach e companhia no Heavy Metal.

Do Período Clássico, herdamos muuuuuuito. Poxa, qual o instrumentista que nunca tocou o tema da quinta sinfonia de Beethoven ou “Eine Kleine Nacht Musik” de Mozart em seu instrumento? Qual guitarrista de Heavy Metal nunca compôs um “riff” de guitarra tipicamente Beethoveniano? Hein? Hein? Que atire a primeira pedra.

No Período Romântico surge um ponto muito interessante: a Música Descritiva. A música descritiva tem por trás do som uma narrativa ou a descrição de um fato ou episódio, isso sem a utilização de textos, valendo-se apenas da música. Por exemplo, na “Symphonie Fantastique” de Hector Berlioz ou em qualquer poema sinfônico. Essa possibilidade foi explorada por diversas bandas, principalmente as de rock progressivo, com aqueles solos intermináveis de sintetizadores, que a princípio parecem sem sentido, mas que após uma análise e entendimento da poética musical, fazem sentido.

A influência da música do séc.XX pairou sobra a banda sueca “Pain of Salvation”, podendo ser exemplificada no álbum “BE” (versão de estúdio), na faixa Martius Nauticus II, durante um interlúdio aonde somente o piano e a bateria tocam. Tem-se ali, um trecho de música atonal (ou não tonal), prática essa que começou a ser aplicada no início do século passado, tendo como grande marco, o ano de 1923, quando Arnold Schönberg (sim, aquele mesmo dos livros de Harmonia e Contraponto que viram as bíblias de qualquer músico) estabeleceu a “Técnica Serial Dodecafônica”, técnica essa que, deu origem à técnica serial não-dodecafônica, sendo essas duas técnicas, matrizes fundamentais do pensamento musical ao longo do séc.XX.
Mas o que isso tem a ver com Rock? Muito, acreditem...


Iniciado anos anos 50, “Die Internationalen Ferienkurse für Neue Musik” ou “Curso Internacional de Férias da Música Nova”, levou à Darmstadt, cidade situada próxima à Frankfurt, na Alemanha, músicos e bandas como Frank Zappa e Jefferson Airplane, e ainda influenciaram diretamente bandas e músicos como ELP (Emerson, Lake and Palmer), Pink Floyd, Yes, Miles Davis e Genesis, dentre tantos outros nomes importantes do Rock, todos esses, músicos interessados no contato com as técnicas composicionais aplicadas por Pierre Boulez e Karl-Heinz Stockhausen (o pai da música eletro-acústica), compositores esses, da extrema vanguarda da música erudita. A influência de Stockhausen sobre o Rock vai muito além disso (apesar de as bandas citadas não praticaram a técnica composicional serial), pois mesmo fora de Darmstadt, os músicos das bandas Grateful Dead e Jefferson Airplane foram seus alunos. Essa influência de Stockhausen sobre os músicos do Rock em geral, garantiu seu lugar na capa do álbum “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band” dos Beatles, já que os músicos da banda eram admiradores de Stockhausen, especialmente George Harrison e Paul McCartney. Podemos citar também a incidência do pensamento de Iannis Xenakis sobre as bandas de “Math Music” ( Música Matemática).

Apontar todas essas ocorrências, seria tema suficiente para uma vida, sem contar as citações e variações de temas do repertório erudito desenvolvidos no repertório do Heavy Metal (sem contar as centenas de bandas que fizeram arranjos de “Fortuna Imperatrix Mundi” da cantata “Carmina Burana” de Carl Orff, e de diversas outras peças, ou até mesmo grupos de Música de Câmara que transcrevem música do repertório erudito para formações que incluem instrumentos modernos, como a guitarra elétrica por exemplo).

Um grande abraço e até a próxima
Allan Christian

Recomendo:
Symphonie Fantastique – Hector Berlioz
Carmina Burana – Carl Orff

 
Allan Christian
allan@hardblast.com
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