O Rio de Janeiro ferveu no dia 05 de novembro e as pouco mais de 3 mil pessoas que viram Mike Patton e Cia no Citibank Hall, foram duplamente testemunhas deste fato.
Por que duplamente? Bem, primeiramente porque estava muito quente, mais de 30 graus Célsius e, segundo, porque o Faith no More incendiou a casa de shows sem piedade alguma, com muita energia e 2 horas de um show impecável que não deixou ninguém ficar parado.
Apesar de sempre ter sido fã, confesso que não estava esperando um show tão bom. Ultimamente o revival de bandas dos anos 80 e 90 está na moda e vários desses artistas já passaram por aqui, alguns mandando bem, outros nos dando uma lição sobre a importância de se saber a hora de parar, mas uma coisa é fato, a maioria deles, mesmo os bons, dificilmente conseguem nos fazer sentir como se realmente estivéssemos voltando no tempo.
Os shows em sua maioria são legais, nostálgicos, mas a sensação de estar numa máquina do tempo raramente existe.
Faith no More causou esse efeito em mim e em todas as pessoas a minha volta. Eu ainda ouso dizer que eles fizeram o melhor show, em matéria de revival, que já vi.
Mesmo com o exorbitante preço dos ingressos eu já imaginava que o Citibank Hall estaria lotado. Essa foi uma das maiores bandas internacionais aqui no RJ por uma boa parte dos anos 90 e todos os 4 shows feitos na Cidade Maravilhosa foram muito cheios. O que eu não esperava era uma fila daquele tamanho. O show estava marcado para as 21h e, as 22:15, a fila ainda circulava o quarteirão ao redor dos 8 caixas disponíveis para atender aos que, como eu, só puderam comprar ingresso na última hora. Com certeza um número considerável de fãs perdeu as primeiras músicas.
Ainda demos sorte porque a produção foi esperta e colocou uma banda de abertura, pois caso não o tivessem feito, eu provavelmente teria sido umas dessas pobres almas...
Exatamente as 22:47 eu consegui entrar no Citibank Hall e, neste exato momento, a banda já se encontrava no palco executando as primeiras notas de “Cowshit”, típica musiquinha de introdução, instrumental, climática, com direito a Mike Patton tocando uma escaleta. Sim, senti um frio no estômago assim que os vi no palco: todos vestindo terno preto e branco, no maior estilo “homem de negócios”. Sr. Patton, bem, ele estava de terno também, mas não tinha como ser algo tão normalzinho...era VERMELHO!!! Logo após esta doce introdução, quem é fã da banda já sabia que algo realmente pesado e clássico viria, não deu outra, a próxima música foi a mais do que clássica “From out of Nowhere” (The Real Thing, 1989). O público estava tão empolgado que era difícil escutar a voz de Patton em alguns momentos, o Citibank Hall inteiro sabia a letra de cor e queria cantar. A banda, logicamente não ia deixar esse clima diminuir e já emendou com duas pauladas consecutivas: “Be Aggressive” e “Caffeine”.
Foi então que o maior entretedor do rock de todos os tempos decidiu falar, mostrando um português bem compreensível e decoradinho, com um “Q” de portunhol (Mike fala espanhol): “Esse música eu fiz para o meu primeiro amor e ela se chama “Evidence”. Quer outra surpresa? A música foi cantada em português e nos deixou com um enorme sorriso no rosto.
Patton é um grande fá de nosso idioma e da música brasileira. Já mencionou isso em diversas entrevistas e nos prestou uma homenagem no álbum King for a Day...Fool for a Lifetime (1995), com a “singela” “Caralho Voador”.
Então, você acha que “Evidence” deu início a um momento mais light no show? ERRADO! Para derrubar as paredes de vez eles começaram “Surprise you´re Dead”, também do The Real Thing (1989), primeiro álbum do Faith gravado por Patton. A música seguinte, “Last Cup of Sorrow” (The Album of the Year, 1997), em minha humilde opinião foi desnecessária, poderia facilmente ter sido substituída por clássicos como “The Real Thing”, “Zombie Eaters” ou “Edge of the World”, que não rolaram.
Mas tudo bem, foi o momento ideal para pegar mais uma cerveja, pois assistir aquele show na seca não estava combinando nada. Pelo visto, muita gente concordou comigo, pois a fila para pegar a cerveja de preços europeus do Citibank Hall estava bem grandinha.
Bem, minha sede me fez perder o comecinho de uma de minhas músicas favoritas “Ricochet”, e tive que sair correndo carregando aquele copo de cerveja preciosa, morrendo de medo de derrubar, mas não aconteceu. Ufa! Dali em diante lógico, gritei, pulei, cantei e fiz tudo o que a multidão fez.
Isso é algo importante a mencionar a respeito de Mike Patton. Estar em frente a este cara torna simplesmente impossível a tarefa de ficar quieto. Ele é um verdadeiro performer, um rei absoluto no palco que domina todas as cenas e faz com que o público responda a tudo o que ele quiser, da maneira como ele desejar. Se ele diz: “pula”, você vai pular, “finja-se de morto, sente-se, levante-se”, o que ele quiser que você faça, você fará com um sorriso que irá de uma orelha a outra. O carisma dele é inacreditável.
Depois dessa, um momento mais calmo com a maravilhosa versão de “Easy”, do The Commodores, mas ninguém se desempolgou, pelo contrário todos cantamos e Mike nos fez fazer ondinhas durante os refrões.
Alguém aqui achou que era hora de descansar? Esqueça! Próxima música: “Epic”. Preciso dizer alguma coisa? Bem, não preciso, mas vou: What is it? It´s it!!! What is it? O que é isso? É o Faith no More, tocando no Rio de Janeiro pela quinta vez, 13 anos depois, fazendo com que nos sintamos ainda mais atrás, em 1991, no Rock in Rio II lotado, vendo aquele carinha de 21 anos fazendo sua banda se tornar uma das maiores internacionais no Brasil por quase uma década. É isso...
Mais cantoria com a galera, hora de “Midlife Crisis”, um momento muito especial do show.A banda fez uma pequena pausa um pouco antes do final da música, mas a galera não obedeceu e continuou cantando até o fim. Os músicos se fingiram de estátua até o final para depois, voltar e tocar, mais uma vez com a galera em coro mandando um dos maiores hits.
E chegou a hora do “Caralho Voador”...
Apesar de ser uma honra para os fãs serem lembrados com uma música inteira num dos álbuns mais vendidos da banda, vamos ser honestos...essa “bossa nova wanna be” não é uma boa música. Na verdade ela é chata e sem sentido e normalmente não empolga ninguém. Vejo essa música da seguinte forma: imagine que é seu aniversário e alguém de quem você gosta muito te dá um presente horrível. Você dá um sorriso “amarelo”, finge que achou legal e fica super sem graça. Isso é a música “Caralho Voador” para mim. Patton ainda tentou dar uma melhorada na situação colocando como música incidental a igualmente chata bossa nova “Ela é Carioca”, mas no meu caso, foi só mais um sorriso amarelo...
Mas nããããão! Eles não iam deixar a poeira baixar e nem a peteca cair. Foi apenas um pequeno momento de descanso, pois a próxima música “Gentle Art of Making Enemies”, mais uma vez nos fez perder a voz e pular enlouquecidamente.
E chegou o momento Roddy Bottum (também muito legal e carismático) de perguntar: “Vocês já tiveram o suficiente?” Um doce para quem adivinhar a resposta...a música? “King for a Day”, do álbum homônimo, nos fazendo quase perder as estribeiras mais uma vez.
Depois disso, finalmente um momento de descanso para os que precisavam fazer um pipizinho, tomar uma aguinha ou....no meu caso, mais uma cerveja. 5 minutinhos de Mr. Bottum tocando melodias repetitivas climáticas. Não vou dizer que foi desnecessário porque eu realmente precisava beber algo e, pelo tamanho da fila do banheiro, devia ter muita gente desesperada ali.
Eles voltaram com “Ashes to Ashes” e Mike Patton nos controlando mais uma vez. As exatamente 23:28h da noite, lá estávamos nós, fazendo ondinhas com nossos braços em ritmos variados conforme seu mestre mandou. Quem iria desobedecer ao rei?
Devo dizer que nessa música, o coro com o público encheu meus olhos de água.
Mais um grande momento: “Just a Man”, com direito a Mike Patton sentado nos ombros do segurança, caminhando pela galera da área vip apertando mãos, tirando fotos... Aparentemente era a última música, mas é óbvio que teria bis, ainda mais depois que ficamos sabendo que em Porto Alegre, um dia antes, eles haviam voltado 3 vezes!!! Não tinha como se livrarem disso aqui também.
Roddy foi o primeiro a voltar, iniciando uma introdução de teclado seguida pela mais que empolgante “We Care a Lot”, do álbum homônimo, anterior a Mike Patton, no entanto eternizada por ele.
Mais uma vez eles tentaram dizer adeus, mas claro que não foi possível. 3 mil pessoas em coro gritavam: “Falling to Pieces, 'Falling to pieces” e eles a tocaram!!! Essa música estava for a do set há muito tempo e nem Mike lembrava direito a letra, pedindo ajuda ao baterista rasta Mike Bordin, criando uma situação engraçada, que fez a todos rir, especialmente quando Mike disse em espanhol: “Solamente porque es Rio”. (só porque é o Rio de Janeiro).
Com o fim dessa música o show realmente acabou...duas horas de haviam passado mas eu me sentia como se o show tivesse sido curtíssimo.
Saíram do palco, mas não sem antes Roddy Bottum mandar uma de suas pérolas: “Boa noite gostosos e gostosas!”
Bem, minha intenção inicial era escrever uma resenha objetiva, visto que o show foi longo e muitas músicas foram tocadas, mas isso seria muito injusto comigo, depois de ter passado por duas horas de empolgação e emoção extremas, com as melhores lembranças dos melhores anos de minha vida, assistindo a essa banda incrível com um dos vocalistas mais perfeitos ao vivo dos anos 90, que se manteve com a voz e o preparo físico daquela época, simplesmente maravilhoso.
Não tem como não babar o ovo de Mike Patton e Cia...
A banda:
Mike Patton – vocal
Roddy Bottum – teclados
Billy Gold – baixo
Mike Bordin – bateria
Jon Hudson – guitarra (único membro não original)