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2010 vem sendo um grande ano para nós, o Hard Blast está crescendo e muita coisa nova e legal está por vir, mas para que isso aconteça o mais rápido possível, precisamos da um tempo nas atualizações através deste endereço. Mas não iremos parar!
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Hellfest - Clisson, França (18, 19, 20 de junho / 2010)

 
Por: Denis Augusto

Fotos: Denis Augusto & Siobhan O'Hara

 

Existem diferentes tipos de festivais. Alguns são enormes eventos corporativos enquanto outros são menores, mais íntimos e ‘integros’. O Hellfest figura no meio como um incrível festival honesto de proporções colossais organizado por alguns (jovens) fãs de rock. Esqueça o Bloodstock ou mesmo o Wacken porque a line-up do Hellfest é algo surreal, que combina grandes e pequenos nomes de praticamente toda a esfera do Metal, Punk e Rock: Black Metal, Stoner Rock, Hardcore, NWOBHM, Experimental etc.

O local é uma enorme área verde localizada na pequena Clisson, oeste da França, perto de Nantes (onde o aeroporto mais próximo está localizado). Cheguei lá na quinta-feira, antes das bandas começarem a tocar, e montei minha barraca sem problemas já que havia grande quantidade de espaço disponível. Infelizmente, choveu muito e consegui dormir por apenas poucas horas, espremido no meu abrigo alagado.

 

Sexta de manhã, após estirar meus trapos e sleeping bag encharcados debaixo do sol, decidi que seria melhor ir para o super mercado da cidade – que ficava a apenas 10 minutos dali – e abastecer para os próximos dias. Era cerca de 1pm e algumas bandas já tinham começado a tocar, as quais eu podia ouvir claramente, sendo Evile a mais interessante. De volta do super-marché dominado por metalheads (onde um fã mais exaltado mandaria um gutural de vez em quando, recebendo – ou não – mais guturais em coro de estranhos no interior das instalações), preparei alguns sanduíches e estoquei pilhas de latas de Kronenbough quente e uísque com Coca-Cola e finalmente me dirigi ao Main Stage 1, onde o KMFDM estava tocando. Não estavam nada mal e tudo era novo naquele momento, com o sol quente rachando e servindo como um grande convite para ficar e desfrutar tudo à mostra. O Deftones continuou com a vibe mais alternativa e Chino Moreno mostrou-se muito cativante e teve o público na palma da mão. Cinco minutos após o término do set dos americanos, foi a vez do Hypocrisy adentrar ao Main Stage 2 (ao lado do Main Stage 1) enquanto eu me posicionava na fila com o crescente grupo de fotógrafos.

 
O show foi ok, apesar de terem escolhido muitas músicas melódicas e de ritmo médio, na minha opinião. Quando “Killing Art” foi anunciada, perto do final, a multidão pareceu reagir um pouco melhor, porém, foi com a canção final, “Roswell 47” (alterada para “France 47”), que definitivamente garantiram sua presença no festival no próximo verão. Uma completa mudança de atmosfera veio cinco minutos mais tarde com o Infectious Grooves que, de acordo com o próprio Mike Muir, estava participando de seu primeiro festival. Não é à toa que ele estava todo elétrico durante o set que tinha muito de seu primeiro álbum: “Punk it Up”, “Monster Skank”, “Infectious Grooves”, “Infectious Blues”. A cozinha estava simplesmente ridícula, com Eric Moore descendo a mão no seu kit com os ritmos mais impressionantes como se fosse nada, enquanto Steve Brunner despia seu baixo de 6 cordas como se fossem um só. Terminaram com “Pledge Your Allegiance”, do Suicidal Tendencies, durante a qual dezenas de pessoas da platéia subiram ao palco para participar do coro “ST-ST-ST”.

Ouvi Sick Of It All à distância e pareciam ter agradado a maioria dos fãs hardcore. Sepultura veio logo depois, às 9:10pm, quando estava finalmente começando a ficar escuro. Mais da metade do set conteve material da “Era Max” e os destaques foram “Escape to the Void”, “Arise”, “Territory” e “Roots Bloody Roots”. Não consegui deixar de pensar duas coisas: por que diabos não estavam tocando mais material novo que velho, e como seria tremendamente impressionante ver novamente a banda com os irmãos Cavalera na mesma. Só alguém que nunca viu Sepultura ao vivo até ‘96 pensaria que a formação recente é o Sepultura de verdade. Ainda consegui pegar os últimos 20 minutos de Godflesh na Terrorizer Tent, e eles estavam mandando um som muito alto e intenso, com Justin Broadrick parecendo envergonhadamente satisfeito com a calorosa recepção.

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O sábado foi o melhor dia do festival. Ter uma noite decente de sono desta vez também ajudou, assim como o fato de que eu tinha finalmente rodado por toda a área, ficando familiarizado com as instalações. Havia consideravelmente mais pessoas que no dia anterior e já dava para prever que não iria ser tão fácil passar de um palco para o outro como foi na sexta-feira. Depois de um pequeno rolê pelas bancas do Extreme Market (onde podia-se encontrar CDs, LPs, roupas, pôsteres, acessórios de motociclismo, tatuagens, livros etc) desci para conferir o Tankard. A escolha inteligente para abrir o show foi “The Morning After”, contendo letras com as quais muita gente conseguiu se identificar, além do fato de ser um clássico de qualquer maneira. Tocaram muito material dos anos 80 e parecia que estavam gostando bastante de estar lá. O vocalista Gerre deve ter perdido cerca de 30kg e foi algo surpreendente, pois na última vez que os vi ao vivo, uns anos atrás, ele já estava parecendo uma morsa, portanto eu esperava ver alguém do tamanho daquele homem gigante de marshmallow do Ghostbusters.

Raven foi o primeiro ato NWOBHM do festival e eles mandaram um set muito enérgico, onde, com certeza, “Rock Until You Drop” e “On and On” foram dois dos destaques. Os irmãos Gallagher estão definitivamente em forma e John mostrava-se tão engraçado quanto competente, com seus gritos agudos afiadíssimos que saiam do “microfone da Madonna” portado pelo mesmo. Mas era hora de presenciar um death metal old school e eu tive a sorte de ver o Asphyx rapidamente passar o som antes de dar inicio a sua destruidora apresentação. Foi legal também vê-los dando as mãos e se abraçando no palco pouco antes de começarem a tocar. Todas as músicas do novo álbum Death ... The Brutal Way soaram excelentes ao vivo e todo aquele headbanging alinhado apenas reforçou a experiência. Embora o line-up tenha mudado constantemente desde a sua formação em `87, o baterista original Bob Bagchus e – especialmente – Martin Van Drunnen estavam lá para se certificar de que tudo funcionaria corretamente.

Depois de Pretty Maids (que substituiu o Ratt) finalizou seu set mediano, o Anvil deu as caras sob fortes aplausos. Estavam já cerca de 5-10 minutos atrasados (a primeira banda a chegar atrasada na incrivelmente pontual programação do Hellfest) e ainda levaram mais uns bons 5 minutos para começar a tocar. Lips ficava lá apontando para a platéia e meio que matando o tempo na verdade, até que os outros dois membros aparecessem. Faz mais de um ano desde que aquele (ótimo) documentário sobre a banda foi lançado e parece que eles ainda estão apreciando a sua fama com efeitos retroativos. O show em si foi tão bom quanto um show Anvil poderia ser, então basicamente fico satisfeito por todos terem se divertido.

Em seguida foi hora de decisão; seria melhor eu ir assistir ao Sadist, que conheço desde o seu primeiro lançamento e nunca vi ao vivo, ou verificar o alarde em volta daqueles australianos do Airbourne? Decidi pela segunda opção e não me arrependi, porque agora sei com certeza que não estarei perdendo nada de mais se eles vierem na minha cidade tocar e acontecer de eu estar ocupado assistindo TV no mesmo dia. Sejamos justos, eles sabem tocar seus instrumentos e têm muita energia, mas tudo parece tão forçado que é difícil acreditar que tanta gente ache aquilo realmente significativo. Trata-se, praticamente, de uma cópia de AC/DC com toques de outras bandas de estádio, como Scorpions. Airbourne caberia perfeitamente em um evento com The Darkness e Wolfmother. O importante é que foi um dia agradável e havia várias bandas boas ainda por vir. A fila na área de fotógrafos durante a apresentação do Slash era um absurdo e muitos de nós fomos convidados a desligar as câmeras e sair fora após a terceira canção. Começaram com nada menos que “Nightrain” seguida de “Rocket Queen” e em seguida passam por alguns números do Velvet Revolver e Slash's Snakepit. Pena que o cantor, apesar de atingir todas as notas altas exigidas pelas canções do GNR, estava a quilômetros de distância de Axl Rose – ou qualquer outro grande cantor de rock com culhões. Ainda assim, não foi uma atuação ruim e outros bons momentos ficaram por conta de “Civil War”, “Paradise City” e “Sweet Child O' Mine”.

 
O show do Twisted Sister começou com a paródia do filme Warriors “Twisted Sister, come out and playieee” em playback momentos antes de todos os integrantes subirem ao palco ao mesmo tempo mandando de cara “Come Out and Play”. Como um bom homem de negócios, Jay Jay French garantiu que a multidão tomasse nota do website da banda, mas felizmente foi atropelado por Dee Snider, que falou sobre como se sentiam bem por estar de volta ao festival e anunciou “Stay Hungry”. Ele é um grande frontman e dá para notar sua sinceridade em cima do palco, às vezes até parecendo um garoto numa loja de doces. Claro que terminaram com “I Wanna Rock” e a multidão enlouqueceu de vez. Porém, o maior showman do festival ainda estava por vir. É realmente impressionante como Alice Cooper ainda convence. A música continua pesada e o espetáculo ainda é dinâmico e divertido de assistir, sem nenhuma pausa, contando apenas com breves partes instrumentais que servem tanto para criar suspense durante algumas mudanças de roupa e cenário, ou para enriquecer uma cena de execução ou tortura. O repertório foi igualmente impressionante, com “Under My Wheels”, “Feed My Frankenstein”, “I'm Eighteen”, “Go To Hell”, “Poison”, “Only Women Bleed”, “Schools Out”, entre outros. Sua voz ainda está surpreendentemente boa, considerando que ele vem fazendo isso há mais de 40 anos! Parecia impossível superar um desempenho tão especial, mas ainda tínhamos o Carcass para conferir. O que posso dizer? Puta show animal! Como Jeff Walker falou durante uma das interações – regadas de humor inglês – com o público “O Ken Owen não está tocando com a gente porque ele é preguiçoso”, mas o fato é que ele sofreu um derrame em ‘99 e passou 10 meses no hospital. Daniel John Erlandsson, do Arch Enemy, fez um ótimo trabalho, mas parte do mérito também vai para o engenheiro de som e técnico de bateria, que conseguiram configurar o som de acordo. As guitarras estavam soando incríveis e era impressionante como o Carcass soava bem ao vivo. Tocaram o álbum Necroticism na íntegra além de boa parte do Heartwork. Foi quase errado, mas eu tive que verificar os últimos 15 minutos de Jello Biafra, que havia começado ao mesmo tempo, em outro palco. Também foi muito bom, pois estavam tocando coisas de seu ótimo debut álbum Audacity of Hype além de algumas faixas dos DK. A última do bis foi “Too Drunk to Fuck” e tenho certeza que a letra se aplicou a uma boa parcela do público.





 

Domingo começou bem e eu consegui pegar as músicas finais do Sabaton, pouco antes do meio-dia. O vocalista é muito engraçado, uma mistura entre George Michael com Rob Halford, e não menos engraçadas são as músicas com todos aqueles coros metálicos que realmente cativaram a multidão. Incrível. Logo depois veio uma banda chamada Freak Kitchen, da Suécia. Eu nunca tinha ouvido falar deles e me senti mal por isso, porque trata-se de um trio de hard rock muito bom. Eles são ases em seus instrumentos, ótimos no palco e têm boas musicas. O vocalista e guitarrista Mattias parecia um speedfreak hiperativo, pois interagia constantemente com a platéia dizendo as coisas mais loucas, tudo muito rápido e com irreverência, como quando ele tentou nos ensinar a bater palmas e os pés ao mesmo tempo seguindo um ritmo muito difícil. Depois de uns 20 minutos, o baixista Chris assumiu as rédeas e nos deu aulas de canto. Tenha em mente que ainda não era nem 1pm e muita gente estava apenas tentando se manter em pé...

Às 3:15pm Udo subiu ao palco com seu tradicional Metal alemão, pesado e mid-paced, sem pieguice, e é claro que eles tocaram algumas músicas de Accept como “Metal Heart” e “Balls to the Wall”. Não sem menos testosterona, o Behemoth atacou com seu Black Metal técnico e alguns azarados fotógrafos ainda foram presenteados com um enorme cuspe que errou o alvo, desferido pelo guitarrista gordinho – que segurou o riso e/ou um pedido de desculpas, como seria de se esperar de um true blackmetaler. Como de costume, o Saxon fez um grande show e Biff Byford parecia encantado com a reação do público. Todos os usuais clássicos estavam lá, com exceção de “747 Strangers in the Night”.

Mondo Generator, a principal banda de Nick Oliveri, foi também uma agradável surpresa e a banda chegou arrebentando com muita energia e destilou músicas rápidas, em sua maioria, com vocais gritados. Logo após, outro ex-integrante do Kyuss deu as caras, praticando um som mais stoner; Brant Bjork and the Bros também agradou o público e manteve as pessoas se questionando já que John Garcia estava a apenas 3 horas de fechar a noite no mesmo palco... O Motörhead estava soando ótimo e tinha Lemmy claramente bêbado de Jack Daniels e Coca-Cola. Ao vivo é realmente fácil constatar como as músicas antigas são muito melhores do que as novas, e até mesmo a mais que batida “Ace of Spades” soava muito bem, perdendo apenas para a última, “Overkill”. Slayer era o próximo e eles simplesmente destruíram. Tom Araya ainda não estava se movendo muito, devido à sua recente cirurgia na coluna, mas mesmo assim praticaram um set matador – tenho certeza de que estão cientes de sua importância para o mundo do Metal extremo, então é muito pouco provável que alguém jamais veja um show do Slayer que seja uma merda. Uma boa surpresa no setlist foi “Chemical Warfare” e esta foi a primeira vez que eu vi prorrogarem a intro de “Rainning Blood” com guitarras dissonantes seguindo a batida inicial dos tons.

Finalmente, era hora de ver o maior nome do festival. Kiss fez uma apresentação de 2 horas e dividiu opiniões. Enquanto eles têm várias músicas excelentes, também é verdade que são homens de idade que fazem de tudo para serem amados por cada indivíduo no planeta. Digo, nos anos 70 você poderia vê-los como um cara popular, egocêntrico, que conhecia todo mundo nos clubes, mas agora tudo a que posso relacioná-los é com a idéia do ator Michael Douglas tentando chegar nas meninas da escola. A interação com o público, tarefa majoritariamente realizada por Paul Stanley, também foi um pouco lenta e havia muita pausa entre as músicas (não a mais brilhante tática a se aplicar num festival como esse). Em certo momento, percebendo a animosidade proveniente de boa parte da multidão, o Starchild ainda tentou soltar um hilário gutural algumas vezes. Tenho que tirar o meu chapéu para a sua perseverança, porém, já que eles pareciam conquistar hereges aos poucos. Após uma hora de rockeiros velhos e sóbrios, precisei dar uma verificada no Garcia Plays Kyuss. Já estavam tocando por 30 minutos e todo mundo na pista parecia estar em êxtase desde o início. Felizmente, cheguei lá um pouco antes de Garcia chamar (como previsto) Bjork e Oliveri ao palco para alguns números, começando com nada menos que “Gardenia”. O som estava tão bom que a banda não queria parar de tocar! Mesmo após o toque de recolher, John Garcia dizia “devemos continuar tocando? Ah, foda-se, vamos lá”, e isso aconteceu pelo menos 3 ou 4 vezes.

Já passava da uma da manhã, e com todas as performances encerradas era hora de fazer as malas e partir (nem preciso dizer que meu vôo saía em apenas algumas horas e eu não tinha a menor idéia de como voltar para o aeroporto). Felizmente, havia centenas de pessoas lá fora na mesma situação, por isso, eventualmente, tudo acabou bem. Tudo o que posso pensar agora é: será que dá para o próximo Hellfest ser ainda melhor? Veremos, mes amis.

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